Com a Primavera renascem os nossos corações e conquistam-se
novas plantações, tanto no campo físico como espiritual. Assim, as nossas
mentes tornam-se terrenos férteis para a sabedoria e os nossos ouvidos
sensíveis às palavras da Grande Mãe.
É neste cenário idílico da crença pagã que decido
disciplinar e materializar aquilo que em mim existe há tantos anos.Ser pagã.
A única verdade que reconheço na minha vida religiosa e espiritual desde que sou um ser pensante é ser pagã. Ser Natureza. Ser Universo. Adorar uma Mãe e um Pai, uma Deusa e um Deus. Não como opostos mas como complementos.
Foi há um ano, oficialmente, na vontade que a Ostara traz
de celebrar a alegria de viver, a renovação da Terra e a esperança, que se
desvaneceu o receio que tinha de não saber o suficiente, de não me sentir preparada
ou “digna” de poder considerar-me pagã. Afinal de contas, seria uma enorme responsabilidade.
Desde há muito que o estudo sobre práticas, crenças,
panteões, valores, simbolismos ou vertentes é uma constante na minha vida. A
minha aprendizagem tem sido solitária, lenta e sem regras, até aqui. Porém, há
um ano e meio senti que estava a chegar a altura de abraçar, finalmente, a
maior e de mais respeito prática: a celebração da Roda do Ano.
Inconscientemente, foi neste sabat maravilhoso, colorido, transformador e
equilibrado que vi esta tal materialização ganhar lugar. A criação de metas, o
traçar de objectivos e a procura pela harmonia interior são conceitos e
promessas que assentaram muito bem na altura que senti a vontade de me envolver
de corpo e alma. De todos os objectivos que defini e pedidos que fiz, um – que
na altura desconhecia ser o mais importante e o que poria todos os outros em
prática – foi realizado com todo o afinco: não perder o rumo. Aceitar que esta
sou eu, mais do que nunca. Que não fui à procura de um rótulo onde me tentei
encaixar. Que este eu sempre existiu e que agora sim, tinha chão por onde
seguir.
O sabat de Ostara, assim como os outros sabats, está
presente nas mais variadas formas nas religiões mais antigas. É aqui que viajo,
é aqui que descubro o reencontro de Deméter e Perséfone, Baldur e Odin, Ísis e Osíris,
Adónis, Dionísio, Innana. A Natureza preenche-me. O equilíbrio também. Mas o
que mais me aquece a alma é esta sensação de autoconhecimento que cada chama,
cada passo na terra, cada mergulho no mar, cada inspiração profunda de vento
frio me oferece. Cada momento de meditação, onde o tempo pára e o Mundo
congela. Aí sim, sou eu por inteiro.
Ser pagã ensinou-me a ser paciente, a sentir-me completa,
a virar as costas ao medo e à desilusão, a conviver comigo, a acreditar, mas
acima de tudo, a confiar que também eu sou um pedaço de Universo.
Com a palavra (e não apenas) escrita no meu corpo, lembro-me todos os
dias das promessas que faço sempre que digo que adoro a Lua, que gosto de
correr descalça na terra, que gosto que o Sol me aqueça e que o vento me
arrepie, que desejo viver no Mar. As promessas que faço sempre que digo que sou
Pagã. E que seja sempre assim!
A Primavera chegou! E por isso, agradecemos!
O Divino está presente em toda a parte,
No frio da tempestade,
Nas pequenas flores em botão,
No nascimento das novas crianças,
Nos solos férteis prontos a serem plantados,
No céu acima de nós,
Na terra abaixo dos nossos pés.
Agradecemos ao Universo por tudo o que nos oferece,
E somos abençoados por estarmos vivos neste dia.
Bem-vinda, vida. Bem-vinda, luz. Bem-vinda, Primavera!