Poucas são as pessoas que sabem que uma das vozes que mais ouço pertence a Frank Sinatra e que se não fossem as poderosas guitarras, os baixos, as baterias gritantes e uma ou outra questão histórica e social, continuava a viver na mística das décadas de 30, 40 e 50. De há uns meses a esta parte, tenho tido o enorme prazer de conviver com as músicas de Caetano Veloso, voltando a conhecê-lo, mas desta vez, um pouco mais a fundo.
Percebi, ao longo de muitos dos seus álbuns que tenho percorrido incessantemente, que Veloso toca no mesmo nervo que Sinatra. Como se as origens Baiano (mas de quando Bahia se escrevia com H) fizessem dele o meu Frank Sinatra exótico, colorido e quente. Ambos são paradoxos. Mas em direcções contrárias: o americano oferece-se com a sua doce voz, doces palavras, doce aspecto. E daí parte para todo um conjunto de histórias e estórias mais acres. Já Caetano Veloso, o estranho, o diferente, aquele que se apresenta sob cachos de cabelo negro e padrões irreverentes de cores ousadas, traz uma voz de canções de embalar - desprovida da galantina de Frank, é certo - mas coberta de um carinho e doçura tão gigantes.
Caetano Veloso, de todas as coisas que o distinguem do Mundo, não tem uma que não se deva às suas origens. Fala de orixás e candomblé, reza a Iemanjá, ao Senhor do Bonfim, apresenta o Ilê, o afoxé, honra as suas mulheres, as suas "negas", as suas loucas, fala do imaginário dos signos de uma forma sedutora e conhece os elementos fazendo deles autênticas analogias a toda uma vida (ou até mais que uma) de sentimentos e sensações. As suas músicas são, sem qualquer dúvida, brasileiras, de instrumentos exóticos e notas de praia, Sol, pele dourada, calor e pés descalços.
De todos os álbuns que amei, foi em A Foreing Sounds, de 2004, que empanquei pela última vez. Não é totalmente Veloso, nem fala do Carnaval ou do Ilê Ayê. Mas é muito o meio caminho entre os dois senhores que tenho comparado até aqui.
Composto por mais de vinte músicas de tributo a canções populares de um imaginário que é tão americano. "The Carioca" abre o álbum, preparando, com sensatez, para a forma das musicas seguintes: Caetano Veloso, com parte das suas origens a descoberto, canta Feelings, de Morris Albert, interpretada, de entre outros, pelos grandes Sinatra e Ella Fitzgerald, Cry Me a River, escrita originalmente para Fitzgerald, porém, tornada famosa no filme The Girl Can't Help It, por Julie London e, mais tarde, interpretada por Rita Lee, Aerosmith e Joe Cocker, Jamaica Farewell, cantada em 1965 por Chuck Berry, quase uma década depois de ter sido apresentada por Belafonte, Summertime, mais uma vez tão associada à maravilhosa Ella Fitzgerald, Body and Soul, de 1930, mas que me ficou tão querida na versão de Tony Bennett e Amy Winehouse, no álbum Duets II que, à semelhança deste, faz tributo à cultura musical popular americana, If It's Magic, de Stevie Wonder, It's Alright Ma, do grande e sensualão Bob Dylan ou, finalmente, Come As You Are, que pertence à inconfundível voz de Kurt Cobain, repleta de todo um quase pesar e anúncio ao que viria a acontecer ao vocalista de Nirvana. Contudo, uma grande desilusão para mim foi a versão de Nature Boy - que me é tão querida - escrita originalmente por um fã e oferecida a Nat King Cole e que podia estar tão melhor explorada e temperada com um qualquer coisa que cada vez faz mais falta. Ainda sobre Nature Boy: ganha, para mim, e a seguir à original, a versão de Miles Davis.
De todas estas e das outras que não referi, hoje selecciono The Man I Love, já antes interpretada por Etta James, Ella Fitzgerald ou Liza Minelli.
Nesta ligação, o Youtube oferece a playlist inteira com as músicas do álbum.
Por tudo isto e mais uma bossa nova, um cheiro a samba ou a reggae devagarinho, uma surpresa aqui e ali e uma semelhança com um ou outro sentimento da minha alma, tenho Caetano Veloso como o número um actual. Amanhã logo se vê.
Ostara é o sabat pagão que celebra o início da Primavera
como o despertar da vida na Terra. O dia e a noite encontram o equilíbrio e,
assim, a luz conquista a escuridão. A Deusa Mãe dá as boas vindas ao jovem Deus
Sol e preparam o casamento sagrado.
Com a Primavera renascem os nossos corações e conquistam-se
novas plantações, tanto no campo físico como espiritual. Assim, as nossas
mentes tornam-se terrenos férteis para a sabedoria e os nossos ouvidos
sensíveis às palavras da Grande Mãe.
É neste cenário idílico da crença pagã que decido
disciplinar e materializar aquilo que em mim existe há tantos anos. Ser pagã. A única verdade que reconheço na minha vida religiosa e
espiritual desde que sou um ser pensante é ser pagã. Ser Natureza. Ser
Universo. Adorar uma Mãe e um Pai, uma Deusa e um Deus. Não como opostos mas
como complementos.
Foi há um ano, oficialmente, na vontade que a Ostara traz
de celebrar a alegria de viver, a renovação da Terra e a esperança, que se
desvaneceu o receio que tinha de não saber o suficiente, de não me sentir preparada
ou “digna” de poder considerar-me pagã. Afinal de contas, seria uma enorme responsabilidade.
Desde há muito que o estudo sobre práticas, crenças,
panteões, valores, simbolismos ou vertentes é uma constante na minha vida. A
minha aprendizagem tem sido solitária, lenta e sem regras, até aqui. Porém, há
um ano e meio senti que estava a chegar a altura de abraçar, finalmente, a
maior e de mais respeito prática: a celebração da Roda do Ano.
Inconscientemente, foi neste sabat maravilhoso, colorido, transformador e
equilibrado que vi esta tal materialização ganhar lugar. A criação de metas, o
traçar de objectivos e a procura pela harmonia interior são conceitos e
promessas que assentaram muito bem na altura que senti a vontade de me envolver
de corpo e alma. De todos os objectivos que defini e pedidos que fiz, um – que
na altura desconhecia ser o mais importante e o que poria todos os outros em
prática – foi realizado com todo o afinco: não perder o rumo. Aceitar que esta
sou eu, mais do que nunca. Que não fui à procura de um rótulo onde me tentei
encaixar. Que este eu sempre existiu e que agora sim, tinha chão por onde
seguir.
O sabat de Ostara, assim como os outros sabats, está
presente nas mais variadas formas nas religiões mais antigas. É aqui que viajo,
é aqui que descubro o reencontro de Deméter e Perséfone, Baldur e Odin, Ísis e Osíris,
Adónis, Dionísio, Innana. A Natureza preenche-me. O equilíbrio também. Mas o
que mais me aquece a alma é esta sensação de autoconhecimento que cada chama,
cada passo na terra, cada mergulho no mar, cada inspiração profunda de vento
frio me oferece. Cada momento de meditação, onde o tempo pára e o Mundo
congela. Aí sim, sou eu por inteiro.
Ser pagã ensinou-me a ser paciente, a sentir-me completa,
a virar as costas ao medo e à desilusão, a conviver comigo, a acreditar, mas
acima de tudo, a confiar que também eu sou um pedaço de Universo.
Com a palavra (e não apenas) escrita no meu corpo, lembro-me todos os
dias das promessas que faço sempre que digo que adoro a Lua, que gosto de
correr descalça na terra, que gosto que o Sol me aqueça e que o vento me
arrepie, que desejo viver no Mar. As promessas que faço sempre que digo que sou
Pagã. E que seja sempre assim!
A Primavera chegou! E por isso, agradecemos!
O Divino está presente em toda a parte,
No frio da tempestade,
Nas pequenas flores em botão,
No nascimento das novas crianças,
Nos solos férteis prontos a serem plantados,
No céu acima de nós,
Na terra abaixo dos nossos pés.
Agradecemos ao Universo por tudo o que nos oferece,
Ontem ouvi que quanto mais olhas para uma coisa, mais te fixas nela, mais harmoniosa te parece no ambiente onde se insere. Na verdade, pode ser uma harmonia tão imensa que passa a poder inserir-se em qualquer ambiente. Como uma força cósmica que permite que cada coisa caiba inúmeras vezes em inúmeras possibilidades. Foi neste seguimento que me lembrei de ti, pelas vezes, sem conta, que te olhei.
Mesmo que da sua perspectiva exista apenas caos em seu redor, nós, que a podemos ver de cima, da perspectiva de Deus, temos a sensação inata de que todo o ambiente encaixa, de que cada coisa tem o seu local e um propósito a ela destinado.
Portanto, à medida que dás afecto e atenção a algo, esse algo torna-se ainda mais harmonioso e com um propósito ainda maior.
É aqui que residem as nossas diferenças: existem aqueles que olham à volta e vêem apenas o caos e os que vêem da perspectiva divina e encontram lugar para cada elemento.
(E é uma espécie de vertigem...)
Quanto mais o fazes, mais o queres fazer. E eu olho para ti há tanto tempo que te encaixei harmoniosamente em mim, arranjei todos os lugares onde cada respiração, cada olhar e cada toque pudessem pertencer. Sem me aperceber do caos que afinal estava lá e, indubitavelmente, te pertence.
"Está outra vez a chover - chove muitas vezes - uma chuva miudinha, que mal se sente e que não impede ninguém de sair de casa - nestas alturas o céu fica pesado, cor de chumbo, a tocar os telhados. É quando eu mais gosto de ir à deriva, levado pelas sombras que aqui e ali afloram em determinadas ruas.
Não foi bem uma vista aérea, foi uma coisa estranha, como se estivesse em cima... Uma espécie de aldeia em miniatura, que eu percorria por dentro estando fora. É como se olhasse para as minhas botas e as visse dentro dos meus pés, apesar de calçadas...
Era como se eu fosse maior do que o que sou - como se estivesse todo dentro de algo mais pequeno do que eu - dentro e fora em simultâneo, porque ao mesmo tempo que cabia lá dentro era maior
do que aquilo em que cabia - uma espécie de ilusão física - de anulação do volume - ou de inibição do impossível - uma abstracção indizível..."
Nesta noite escrevia sonetos sobre ela de cabeça.
Hoje confia-mos.
A noite estava gelada e a Lua subia alta e fina a crescer devagarinho como se quisesse algum segredo só para ela.
R. é uma criatura diferente das demais.
E quando se trata dela, E.M., parece feito de uma porcelana fina.
Não existe coisa no Universo que mais preencha que a confiança.