quarta-feira, 7 de junho de 2017

A Foreign Sound, Caetano Veloso (2004)

Poucas são as pessoas que sabem que uma das vozes que mais ouço pertence a Frank Sinatra e que se não fossem as poderosas guitarras, os baixos, as baterias gritantes e uma ou outra questão histórica e social, continuava a viver na mística das décadas de 30, 40 e 50. De há uns meses a esta parte, tenho tido o enorme prazer de conviver com as músicas de Caetano Veloso, voltando a conhecê-lo, mas desta vez, um pouco mais a fundo.
Percebi, ao longo de muitos dos seus álbuns que tenho percorrido incessantemente, que Veloso toca no mesmo nervo que Sinatra. Como se as origens Baiano (mas de quando Bahia se escrevia com H) fizessem dele o meu Frank Sinatra exótico, colorido e quente. Ambos são paradoxos. Mas em direcções contrárias: o americano oferece-se com a sua doce voz, doces palavras, doce aspecto. E daí parte para todo um conjunto de histórias e estórias mais acres. Já Caetano Veloso, o estranho, o diferente, aquele que se apresenta sob cachos de cabelo negro e padrões irreverentes de cores ousadas, traz uma voz de canções de embalar - desprovida da galantina de Frank, é certo - mas coberta de um carinho e doçura tão gigantes. 
Caetano Veloso, de todas as coisas que o distinguem do Mundo, não tem uma que não se deva às suas origens. Fala de orixás e candomblé, reza a Iemanjá, ao Senhor do Bonfim, apresenta o Ilê, o afoxé, honra as suas mulheres, as suas "negas", as suas loucas, fala do imaginário dos signos de uma forma sedutora e conhece os elementos fazendo deles autênticas analogias a toda uma vida (ou até mais que uma) de sentimentos e sensações. As suas músicas são, sem qualquer dúvida, brasileiras, de instrumentos exóticos e notas de praia, Sol, pele dourada, calor e pés descalços.

De todos os álbuns que amei, foi em A Foreing Sounds, de 2004, que empanquei pela última vez. Não é totalmente Veloso, nem fala do Carnaval ou do Ilê Ayê. Mas é muito o meio caminho entre os dois senhores que tenho comparado até aqui.
Composto por mais de vinte músicas de tributo a canções populares de um imaginário que é tão americano. "The Carioca" abre o álbum, preparando, com sensatez, para a forma das musicas seguintes: Caetano Veloso, com parte das suas origens a descoberto, canta Feelings, de Morris Albert, interpretada, de entre outros, pelos grandes Sinatra e Ella Fitzgerald, Cry Me a River, escrita originalmente para Fitzgerald, porém, tornada famosa no filme The Girl Can't Help It, por Julie London e, mais tarde, interpretada por Rita Lee, Aerosmith e Joe Cocker, Jamaica Farewell, cantada em 1965 por Chuck Berry, quase uma década depois de ter sido apresentada por Belafonte, Summertime, mais uma vez tão associada à maravilhosa Ella Fitzgerald, Body and Soul, de 1930, mas que me ficou tão querida na versão de Tony Bennett e Amy Winehouse, no álbum Duets II que, à semelhança deste, faz tributo à cultura musical popular americana, If It's Magic, de Stevie Wonder, It's Alright Ma, do grande e sensualão Bob Dylan ou, finalmente, Come As You Are, que pertence à inconfundível voz de Kurt Cobain, repleta de todo um quase pesar e anúncio ao que viria a acontecer ao vocalista de Nirvana. Contudo, uma grande desilusão para mim foi a versão de Nature Boy - que me é tão querida - escrita originalmente por um fã e oferecida a Nat King Cole e que podia estar tão melhor explorada e temperada com um qualquer coisa que cada vez faz mais falta. Ainda sobre Nature Boy: ganha, para mim, e a seguir à original, a versão de Miles Davis.
De todas estas e das outras que não referi, hoje selecciono The Man I Love, já antes interpretada por Etta James, Ella Fitzgerald ou Liza Minelli.


Nesta ligação, o Youtube oferece a playlist inteira com as músicas do álbum.
Por tudo isto e mais uma bossa nova, um cheiro a samba ou a reggae devagarinho, uma surpresa aqui e ali e uma semelhança com um ou outro sentimento da minha alma, tenho Caetano Veloso como o número um actual. Amanhã logo se vê.

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